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Por que empresas são vendidas pelo valor da marca

7 min de leitura · Agora Marcas

Quando um grupo bilionário compra uma empresa centenária, ele raramente está comprando máquinas. Máquinas se compram novas. O que não se compra pronto é uma marca com décadas de confiança acumulada.

Observe as maiores aquisições da história empresarial brasileira e um padrão salta aos olhos. Em 2002, a Nestlé comprou a Garoto, dona de uma das marcas de chocolate mais queridas do país. Em 2019, a Natura anunciou a aquisição da Avon, operação bilionária que criou um dos maiores grupos de beleza do mundo. Em 2021, o Grupo Soma pagou cerca de R$ 5 bilhões pela Hering, marca catarinense com mais de 140 anos. Em 2023, a Nestlé voltou ao tabuleiro e adquiriu o grupo dono da Kopenhagen e da Brasil Cacau. Em nenhum desses casos o ativo central era físico. O que mudou de mãos, essencialmente, foi o direito exclusivo sobre nomes que ocupam a memória afetiva de milhões de consumidores.

O que o comprador está realmente comprando

Uma marca consolidada entrega três coisas que nenhum investimento em capacidade produtiva entrega no curto prazo. Primeiro, demanda instalada: clientes que já escolhem o produto sem precisar ser convencidos, o que reduz drasticamente o custo de aquisição. Segundo, poder de preço: a capacidade de cobrar mais do que o concorrente genérico e sustentar margem. Terceiro, plataforma de expansão: um nome confiável permite lançar novas linhas, entrar em novas categorias e abrir novos canais com risco reduzido.

É por isso que, na alocação do preço de compra dessas operações, parcela expressiva do valor vai para intangíveis. A contabilidade do comprador reconhece formalmente o que o vendedor construiu de modo informal ao longo de décadas: a marca era o principal patrimônio da empresa, ainda que nunca tivesse aparecido no balanço dela, como explicamos em marca como ativo no balanço.

O detalhe jurídico que sustenta os bilhões

Nada disso funciona sem um fundamento pouco glamouroso: o registro. O comprador só paga bilhões por um nome porque esse nome é um direito de propriedade exclusivo, registrado no INPI e transferível por cessão averbada. Se a Hering fosse apenas um nome usado há 140 anos, sem registro, qualquer concorrente poderia explorá-lo, e o valor da transação desabaria. A exclusividade jurídica é o que converte reputação em ativo negociável.

Esses três pontos são exatamente o que a auditoria do comprador examina antes de fechar, processo que detalhamos em due diligence de marcas em fusões e aquisições. Fragilidades encontradas ali viram desconto no preço ou condição para o fechamento.

A lição para empresas de qualquer porte

É tentador achar que essa lógica só vale para gigantes. É o contrário: ela vale proporcionalmente mais para o médio empresário, porque no segmento dele a diferença entre uma empresa com marca protegida e uma empresa com nome solto é a diferença entre ter algo a vender e ter apenas uma operação. Fundos de investimento e compradores estratégicos que consolidam setores no Brasil, de clínicas a escolas, de indústrias a franquias, aplicam o mesmo checklist das operações bilionárias, apenas com menos zeros.

Quem pretende um dia vender a empresa, receber sócio ou simplesmente construir patrimônio de longo prazo deveria trabalhar de trás para frente: que perguntas o comprador fará daqui a dez anos? Todas as respostas boas começam com registro vigente, portfólio organizado e uso consistente da marca.

Construa hoje o ativo que será comprado amanhã

Marcas valiosas não surgem no dia da venda. Elas são construídas em décadas de consistência e protegidas desde o primeiro dia. O registro de marca é o alicerce dessa construção, e a gestão ativa do portfólio é a manutenção que preserva o valor.

O padrão se repete no médio mercado

As operações bilionárias ganham manchete, mas o mesmo roteiro se desenrola diariamente no chamado middle market brasileiro, longe dos holofotes. Consolidadores compram redes regionais de farmácias pelo valor dos nomes locais que os clientes conhecem há décadas. Grupos educacionais pagam prêmio por escolas cuja marca enche turmas sem publicidade. Indústrias adquirem concorrentes menores essencialmente para incorporar marcas com prateleira cativa em determinadas regiões. Em todos esses casos, os múltiplos pagos variam conforme a solidez jurídica do intangível: marca registrada, sem litígios e com titularidade limpa vale múltiplo cheio; marca frágil vale desconto ou inviabiliza a conversa.

Há um dado revelador nessas transações menores: com frequência, o comprador exige que a regularização da marca seja concluída antes do fechamento, transformando pendências de INPI em condição contratual. Vendedores que descobrem nesse momento que o registro está vencido, na pessoa física do fundador ou em classe errada, perdem meses de negociação e poder de barganha, quando não perdem o negócio. O contraste com quem chega preparado é brutal: a mesma auditoria que pune desorganização premia portfólios bem geridos com fechamentos rápidos e preços defendidos.

Para o empresário médio, a conclusão é prática: o mercado comprador já opera com a régua das grandes operações. A escolha não é entre se preparar ou não; é entre se preparar no seu tempo, com custo baixo, ou no tempo do comprador, pagando em desconto o que economizou em gestão.

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